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Só para atualizar...
Essa coisa de blog com atualização diária tem dessas coisas não? Obs: putz, coisa tem coisa... Mas, no fundo é verdade, o termo “coisa” já se tornou universal. Trata do nada e do tudo ao mesmo tempo. Americano não entenderia, espanhol não entenderia, nem chinês conseguiria entender a pluralidade semântica da coisa no vocabulário tupiniquim. Verbo, adjetivo e até interjeição. Sim, a coisa é útil. O dicionário Houaiss confirma “qualquer ser; ser inanimado; objeto, item; ato, evento, assunto...”. Sim, a coisa deve ser mais utilizada no nosso cotidiano. Sou adepto do coisa... Sim, do coisa para evitar duplas interpretações.
Enfim, voltando à questão do blog, às vezes você não tem assunto. Amanhece com pouca inspiração, não tem nada para dizer, mas, mesmo assim, vai “atualizar” o trem... Sim, assim como O ou A “coisa”, a atualização de um blog por atualizar tem função social parecida com a semântica da ou do "coisa".
No momento em que você atualiza um blog sem ter nada para dizer, você, na melhor das hipóteses, está dando uma satisfação aos seus leitores. “Olha, não é que estou sem tempo ou preguiça de atualizar, mas, como não tenho nada para escrever, estou somente atualizando”. Um serviço, sem serviço ou melhor, um quase desserviço. Ou seja, estamos dando a real conotação para o nada... Ou dando a conotação real do ócio quase criativo.
Mas, voltando ao ponto inicial, estou apenas atualizando o blog. Estou sem tempo para atualizar, meu computador deu problema, estou usando o do trabalho, meu chefe está me olhando com cara de "vá trabalhar vagabundo", enfim, até amanhã com novas histórias e prometo que volto a escrever. Mas não esqueci de você não leitor, estou tendo apenas uns pequenos problemas. Até amanhã... Ao meu jeito, mas apenas atualizando o blog...
Escrito por Wilson Lima às 06h44
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O último romântico
O nervosismo estampado nas folhas de talão de cheque estragadas de Paulo dava a dimensão exata da importância daquele dia. Um dia decisivo, fatal, único... O dia final, da tragédia, do suicídio, do apocalipse ou quem sabe, na melhor das hipóteses, na melhor das hipóteses mesmo... Da sua felicidade.
- Sim, vai ser hoje... Por que hoje? Sim, será hoje... Meu Deus é hoje!
Sim... Paulo iria pedir a mão de Marlene em casamento. Nunca esteve tão nervoso. Sim, não, talvez... (um parênteses - a dúvida é dele, não a minha. Melhor, acredito que seja de ambos. Quer dizer, só dele! Meu amor, já disse, que a dúvida é dele, fique calma... Depois a gente conversa... Mas a dúvida é dele! Só dele... abaixe esse rolo de macarrão, pelo amor de Deus!). A importância da data, do compromisso, da loucura que ele iria cometer naquele momento. A tensão da defesa da monografia, da prova final de matemática na oitava série, a tensão da primeira vacina e da final da Copa do Mundo de 94... Nada, nada se compara à dramaticidade daquele momento...
Paulo nunca tinha tocado no assunto com Marlene, mas estava tudo pronto. Era irritantemente metódico, perfeccionista e politicamente correto. Vivia com uma camiseta de Che Guevara e socializava 25% do salário para a Igreja Adventista do seu bairro e outros 25% para dois pobres vagabundos consumidores de maconha que residem sob a ponte José Sarney. Paulo tinha preparado tudo: as alianças, o padre, o bufê e até a cara de pau bandida dos homens apaixonados. Perfeito se não fosse por um detalhe: um terror chamado Marlene. Eram três anos de relacionamento. Três anos de relatórios diários; três anos de investigações na carteira e aparelho celular; três anos de fidelidade canina; três anos de concordância serviçal. E o pior de tudo: três anos de neuras e insegurança. Dele, Paulo é lógico!
Era uma noite de domingo e Paulo queria fazer daquele dia, uma data especial. Mas, entretanto, contudo, todavia, e outras conjunções adversativas que você de fato só aprende a usar quando se tem mais de 21 anos e ou quando passa por situações poligâmicas de grandes proporções, Paulo pensou nas possibilidades. Nunca tinha chamado Marlene para sair naquelas circunstâncias. Além disso, um dia antes, Paulo esteve em um retiro com dezenas de pessoas da igreja. Entre orações e tentações circunstanciais, preferiu a Bíblia. Mesmo assim...
- Ela é ciumenta... Ela vai imaginar coisas que não deve... Vai pensar que antecipei a despedida de solteiro. Que tenho um caso, que tenho outra mulher, sei lá... Será que ela gostar? Não sei... Como vou fazer um pedido desse? A levo em uma pizzaria e entrego a aliança? Não, ela vai imaginar que quero uma mulher para serviços do lar. Sim, ela vai associar a pizzaria a cozinha. Sei disso, conheço. Já sei! Chocolate em casa! Não, não... Ela já tem algumas espinhas e isso vai ser uma ofensa para ela. Já estou imaginando. “Paulo, você quer me deixar feia e gorda?”. Não, melhor não... Já sei... Um passeio de carro por Copacabana. Putz, coisa de adolescente pobre, não é? Imagine... Eu, pedir Marlene em casamento em um passeio por Copacabana... Não, não, não... Infantil demais... Pelo amor de Deus. Flores! É... Flores... Sempre mandei, ela sempre gostou... Piegas demais. Meu pai não pediu a minha mãe em casamento com flores. Foi na lata, na cara, na coragem, no sapatinho... Não, melhor não...
Uns 10 segundos depois...
- Que dificuldade... Casar para quê? Ser feliz, juntar tudo, brigar, ter filhos, ver ela gorda, caída, velha, tosca, ignorante, mandado, eu preso, sem liberdade... Caramba! Esquece... Pensando bem... Vou vender essa aliança amanhã mesmo. Ela não desconfia, eu não tenho problemas e tudo fica na paz do senhor.
Isso comprova que Paulo era irritantemente metódico, perfeccionista e politicamente correto.
Escrito por Wilson Lima às 20h57
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Apenas uma questão de nome e família
Em uma qualquer rua do São Francisco, em um domingo qualquer por volta de um meio dia qualquer...
- Fórbyson Kradswall... (com som de “v” mesmo) - Oi...! - Vem cumer arroz com bóbra... - Ah... Arroz com bóbora não! Num tinha coisa melhor não? Tipo carne de sol com farinha ou quisuco com pão? - Não reclama cão... Chama teus irmão aí - Fórybson Kradswell e Fórbyson Kradswem... (também com som de “v”) - Xiii... Complicou... Eles estão do outro lado da rua... - Com quem? - Com Wélbson, Úlbison e Ílbson... - Ah tá, os filhos do tio Wellintu?? - Sim mamãe, do tio Helinton, irmão do tio Jhonathan... - Sim, Kradwall, tudo bem, sei quem são os dois... Mas teu arroz com bóbra tá esfrirando... - Tudo bem, já tou indo. Ei... Posso chamar dois amigos meus para almoçar com a gente? - Tudo bem, Krads, mas quem? - Jeffreson José, Wellinson Maria e Carlio Robertho... - Hum... Os filhos de Joanilton e de Marilsiana?? - Não mãe, é Marilanha... - Marilanha, Marislana, sei lá... Não é aquela que mora na rua do seu Atuno e da Escabina...?? - Sim, mamãe, seu Atuno e dona Escabina... A propósito, a senhora sabia que eles tiveram um filho há pouco tempo? - Foi é... - Foi! Uma menina. Nasceu há dois meses... - Me conta, qual o nome da menina...?? - Mãe, a dona Marilanha tava me contando que o nome da menina é Atubina. Os pais misturaram os nomes, legal, né??? - Ah, mas que coisa, esse povo gosta de colocar nome estranho em todo mundo, né filho? - Realmente mainha, por que será? - Sinceramente não sei, mas seu arroz com bóbra tá esfriando. - Tudo bem, não tem coisa melhor... - Hoje não... Mas te contenta...
Krads, sem que a mãe saiba, reflete...
- Para que tem um nome como esse, arroz com bóbora é fichinha...!
Escrito por Wilson Lima às 19h05
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